Natal tem o dom de se auto-enfeiar. Talvez ela seja masoquista, como a personagem-título do conto “A Mulher Mais Linda da Cidade”, de Charles Bukowski, que se mutilava, para que os homens não a enxergassem apenas como um rostinho bonito, mas que se propusessem a buscar sua verdadeira essência. Talvez seja isso mesmo que acontece com Natal — a cidade.
Que outro motivo teria ela para fazer o que está fazendo com um dos seus cartões-postais mais lindos? A Pedra do Rosário está em reforma. No lugar da balaustrada, que tornava a construção humana uma interferência mais leve às margens do Potengi, surgiu uma murada tosca pintada de terrível amarelo-kraft. Partindo desse fato, comecei a me lembrar de outras atrocidades auto-infligidas pela cidade. (Falo de autoflagelação porque eu não quero acreditar jamais que são pessoas — arquitetos, paisagistas ou qualquer que seja a formação profissional — que cuidam da cidade seguindo a estética do enfeiamento).
Citei a Pedra do Rosário porque ela faz parte do meu trajeto diário para o trabalho, bem como o Cemitério do Alecrim, outro ponto vítima dessa estética tão em voga na capital potiguar. O cemitério, que estava precisando mesmo de reforma, passou por uma ano passado. Mas, ao invés de ser restaurado, sofreu um processo de metamorfose (involutiva, claro). Seus sóbrios muros levemente azuis foram trocados por muros de um amarelo agressivo, os pesados portões foram trocados por um portãozinho mixuruca de hastes (acho que venderam o outro no peso), e o pior: quem, por caridade, teve a idéia de pintar aquelas orquídeas de péssimo gosto, brega ao extremo, sobre as paredes de azulejo branco? Aquilo é pavoroso (digo pavoroso porque não estou com tempo para procurar outros adjetivos piores)! Ou quem pintou aquilo achava que estava reproduzindo a beleza dos afrescos romanos?
Sem falar que Natal adora um concreto. Nunca vi, numa cidade escaldante que é a nossa, arrancarem as árvores para passar um calçadão de concreto. Por Cristo! Quando você caminha nessas calçadas no pingo do meio-dia, parece que você vai rachar de tanto calor! A sensação é de caminhar sobre uma chapa quente! Aqui, além do enfeiamento, existe também a busca do mal-estar coletivo, que já é um outro assunto.
Depois reclamam quando elogio o amor que cidades como Recife e São Paulo tem por si mesmas, seus monumentos, seus pontos históricos e a preservação de sua cultura — com exceção do Memorial da América Latina, na capital paulista, cujas edificações são esplendorosas, mas o assustador chapadão de concreto, sorry Niemeyer, você, infelizmente, copiou de nós!
segunda-feira, 8 de dezembro de 2008
E a árvore?
E a árvore de Natal? A maior do país? Todo dia passo por lá e só vejo o mastro de metal (sem iluminação de alerta, claro, que é para as aeronaves se chocarem contra ele à noite), que, segundo minha visão, ou ilusão de ótica, sei lá, está torto. Cadê a árvore quando já estamos às vésperas do Natal? Cadê o show de Simone cantando "Então è Nataaaaalllll...."? Cadê o Natal em Natal???
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