quinta-feira, 9 de julho de 2015

A MORTE PREMATURA E A DITADURA DA CULTURA ALHEIA (OU CUIDE DO SEU QUE EU CUIDO DO MEU)

          Há alguns dias ocorreu um mal-estar na internet, principalmente nas redes sociais, em decorrência do trágico falecimento do cantor sertanejo Cristiano Araújo. OK, eu também não o conhecia, mas isso não me dá o direito de desrespeitar sua memória; de ficar com frescurinha de “Quem era Cristiano Araújo?” ou “Que famoso cantor era esse que ninguém conhecia?”. Não conhecia, beleza, fique na sua! Respeite os milhares de fãs que com certeza ele deveria ter. As pessoas não são obrigadas a fazer parte do seu universo. Ninguém é obrigado a conhecer Einstürzende Neubauten ou Dead Can Dance, mesmo eu achando que são fundamentais para a vida social e espiritual de qualquer ser humano.

          Mas o mais inconveniente é o jornalista e apreciador-de-dança-do-ventre nas horas vagas Zeca Camargo ir à TV e fazer um comentário comparando a comoção pública com a onda de livros para colorir e a falta de cultura do povo brasileiro. E antes que alguém pergunte: Não, eu não assisti ao vídeo do comentário (ou crônica, como alguns preferem chamar), mas li algo a respeito do conteúdo proferido.

          Segundo o portal R7, entre outras coisas, Zeca falou que: “A alma cultural brasileira é pobre”; “De uma hora para outra, fãs e pessoas que não tinham ideia de quem era Cristiano Araújo partiram para o abraço coletivo"; comparou essa união em torno da morte do cantor com a moda dos livros para colorir, a que ele disse “estarem chamando erroneamente de arte”; disse que "Nossa canção popular é dominada por revelações de uma música só" e que deveríamos adorar ídolos de verdade como Michael Jackson e a Princesa Diana.

          Uma semana depois do comentário de Zeca Camargo, a apresentadora do programa Video Show, Mônica Iozzi, voltou a abordar o tema. Na edição do dia 7 de julho do programa que apresenta, ela revelou ser fã de Cazuza. "Quem não conhece o Cazuza, o pessoal mais novinho, vá ouvir Cazuza, gente. Vamos deixar um pouquinho o sertanejo universitário de lado, vamos ouvir um pouquinho mais de Cazuza para a gente ter um mundo melhor", teria dito a apresentadora, segundo também o portal R7.

Bom,vamos lá!

          As premissas dão margem a centenas de assuntos. Vou começar com o mais simples e rápido: os livros para colorir. Eu até entendo o motivo pelo qual eles se tornaram febre no mundo todo. O ser humano contemporâneo está precisando se distrair do tédio interior e da apreensão sobre a atual situação econômica. Então (re)descobriram que colorir, como fazíamos quando éramos crianças, ajuda nesse objetivo. Um outro motivo seria o da modinha mesmo, como foram moda o bambolê, o ioiô e a molamania.  No entanto, nunca ouvi se referirem aos livros para colorir como arte, como alegou, indignado, Zeca Camargo. Não, livros para colorir não é arte nem nunca ouvi se referirem a eles dessa forma. São cadernos de atividades. Mas entrar na questão de arte nos obriga a abrir um leque bem mais amplo, onde estão inseridos, entre outros assuntos polêmicos, o pintor Romero Britto e a eterna polêmica de considerar seus quadros como obras de arte.

          "Nossa canção popular é dominada por revelações de uma música só."

        Não. Não existem revelações de uma música única apenas na cultura brasileira. Se quiser, posso dar uma lista infindável de exemplos estrangeiros: Acqua – “Barbie Girl”, Vanilla Ice  – “Ice, Ice Baby”, Paula Abdul – “Rush, Rush”, Los del Rio – “Macarena”, Baha Men – “Who let the Dogs Out?” (que no Brasil virou o funk “Só as cachorras .../ As popozudas.../ As preparadas…/ O baile todo…”), Blind Melon – “No Rain”, Soft Cell – “Tainted Love”... Enfim , é um fenômeno tão universal que os americanos criaram o termo “One Hit Wonder” para se referirem a essas revelações de uma música só.
         
          A alma cultural brasileira é pobre? Sim, é pobre e isso não é novidade. Se compararmos com a cultura europeia, por exemplo, que tem milênios de existência, a cultura brasileira é pobre e seu povo não se esforça para protegê-la. Peguemos a Itália, por exemplo: essa nação é tida como um grande museu a céu aberto. Lá podemos encontrar desde as ruínas da Antiguidade, de séculos antes de Cristo, passando pelo patrimônio medieval, renascentista e barroco. E no Brasil, o que preservamos? Salvo algumas construções barrocas encontradas principalmente em Minas Gerais e algumas ruínas coloniais, como nas Missões no Rio Grande do Sul, não temos preservado muito a nossa cultura.

          Agora, se Zeca Camargo e Mônica Iozzi citam o termo “Cultura” para se referirem a gosto pessoal, aí é um outro assunto.

          “Genericamente a cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem não somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade como membro dela que é. (...) Cada país tem sua própria cultura, que é influenciada por vários fatores.” 

          Portanto, queridos jornalistas, música sertaneja é cultura sim! Faz parte do conjunto de interações realizadas pelo provo brasileiro. Da mesma forma que telenovela também é cultura, forró é cultura, carnaval é cultura, São João é cultura. Não confundam, por favor, cultura com intelectualidade, que deve ser o termo ao qual vocês se referem nas suas colocações. Cultura não é só aquilo de que vocês gostam. Resumidamente, cultura é o conjunto de expressões de um povo.

          Se para Zeca, Michael Jackson e a princesa Diana são ídolos de verdade, para mim eles não são. Se para a Mônica, Cazuza é um ídolo de verdade, para mim ele não é. E aí? Vão querer agora selecionar meus ídolos? E quem tem o direito de selecionar os ídolos de uma cultura? Eles dois?

          “Vamos ouvir um pouquinho mais de Cazuza para a gente ter um mundo melhor.” Sério,  Sra. Mônica Iozzi? De verdade? Que tipo de mundo melhor o Cazuza deixou? Que transformações sociais ele operou? Que tipo de pessoa era o Cazuza para eu ter como referência para um mundo melhor? Quem é você, para sugerir que o povo brasileiro deixe o sertanejo universitário de lado? Não, eu não sou fã de sertanejo universitário, mas isso não me dá o direito de classificá-lo como melhor ou pior do que qualquer outro gênero  musical.

          Aqui cabe um dos provérbios mais inteligentes do mundo: “Cada um sabe de si.” Vamos deixar de nos incomodar com o gosto musical do vizinho, com os ídolos pelos quais ele chora, com a comoção nacional. Não curtia? Fica na sua! Respeita quem curte, respeita a família do rapaz que sofre por tal perda, respeita o direito de cada um curtir o que bem quiser e bem entender. Tem o direito de falar o que pensa? OK! Mas esse direito não inclui o de ofender o próximo.

          Muitas pessoas defenderam o que o Zeca Camargo falou, dizendo que ele apenas disse o que muita gente pensava e não teve coragem. Mas eu pergunto: para que dizer? Está incomodado com a comoção e a promoção exagerada da mídia? É como eu sempre digo: desliga a TV e vá ler um livro. Você lucra muito mais.



(Postagem escrita ao som de Dead Can Dance porque é do que eu gosto e tem que ser considerado como Cultura!)






Dead Can Dance (que fofos!)
Vamos aprender a gostar deles porque é Cultura.


Einstürzende Neubauten
(Vamos curtir, hein!)




Modinhas.
E qual o problema?




Romero Britto


 Para a elaboração dessa postagem, foram consultadas as seguintes páginas:


Publicado em 29/06/2015.

Publicado em 07/08/2015.