Há alguns dias ocorreu
um mal-estar na internet, principalmente nas redes sociais, em decorrência do trágico
falecimento do cantor sertanejo Cristiano Araújo. OK, eu também não o conhecia,
mas isso não me dá o direito de desrespeitar sua memória; de ficar com frescurinha
de “Quem era Cristiano Araújo?” ou “Que famoso cantor era esse que ninguém conhecia?”.
Não conhecia, beleza, fique na sua! Respeite os milhares de fãs que com certeza
ele deveria ter. As pessoas não são obrigadas a fazer parte do seu universo. Ninguém
é obrigado a conhecer Einstürzende Neubauten ou Dead Can Dance, mesmo eu
achando que são fundamentais para a vida social e espiritual de qualquer ser
humano.
Mas o mais inconveniente
é o jornalista e apreciador-de-dança-do-ventre nas horas vagas Zeca Camargo ir
à TV e fazer um comentário comparando a comoção pública com a onda de livros
para colorir e a falta de cultura do povo brasileiro. E antes que alguém pergunte:
Não, eu não assisti ao vídeo do comentário (ou crônica, como alguns preferem
chamar), mas li algo a respeito do conteúdo proferido.
Segundo o portal R7,
entre outras coisas, Zeca falou que: “A alma cultural brasileira é pobre”; “De
uma hora para outra, fãs e pessoas que não tinham ideia de quem era Cristiano
Araújo partiram para o abraço coletivo"; comparou essa união em torno da
morte do cantor com a moda dos livros para colorir, a que ele disse “estarem
chamando erroneamente de arte”; disse que "Nossa canção popular é dominada
por revelações de uma música só" e que deveríamos adorar ídolos de verdade
como Michael Jackson e a Princesa Diana.
Uma semana depois do comentário
de Zeca Camargo, a apresentadora do programa Video Show, Mônica Iozzi, voltou a
abordar o tema. Na edição do dia 7 de julho do programa que apresenta, ela
revelou ser fã de Cazuza. "Quem
não conhece o Cazuza, o pessoal mais novinho, vá ouvir Cazuza, gente. Vamos
deixar um pouquinho o sertanejo universitário de lado, vamos ouvir um pouquinho
mais de Cazuza para a gente ter um mundo melhor", teria dito a apresentadora, segundo também o portal R7.
Bom,vamos
lá!
As
premissas dão margem a centenas de assuntos. Vou começar com o mais simples e
rápido: os livros para colorir. Eu até entendo o motivo pelo qual eles se
tornaram febre no mundo todo. O ser humano contemporâneo está precisando se
distrair do tédio interior e da apreensão sobre a atual situação econômica. Então
(re)descobriram que colorir, como fazíamos quando éramos crianças, ajuda nesse
objetivo. Um outro motivo seria o da modinha mesmo, como foram moda o bambolê,
o ioiô e a molamania. No entanto, nunca
ouvi se referirem aos livros para colorir como arte, como alegou, indignado,
Zeca Camargo. Não, livros para colorir não é arte nem nunca ouvi se referirem a
eles dessa forma. São cadernos de atividades. Mas entrar na questão de arte nos
obriga a abrir um leque bem mais amplo, onde estão inseridos, entre outros
assuntos polêmicos, o pintor Romero Britto e a eterna polêmica de considerar
seus quadros como obras de arte.
"Nossa canção
popular é dominada por revelações de uma música só."
Não. Não existem revelações
de uma música única apenas na cultura brasileira. Se quiser, posso dar uma
lista infindável de exemplos estrangeiros: Acqua – “Barbie Girl”, Vanilla Ice – “Ice, Ice Baby”, Paula Abdul – “Rush, Rush”,
Los del Rio – “Macarena”, Baha Men – “Who let the Dogs Out?” (que no Brasil
virou o funk “Só as cachorras .../ As popozudas.../ As preparadas…/ O baile
todo…”), Blind Melon – “No Rain”, Soft Cell – “Tainted Love”... Enfim , é um fenômeno
tão universal que os americanos criaram o termo “One Hit Wonder” para se
referirem a essas revelações de uma música só.
A alma cultural
brasileira é pobre? Sim, é pobre e isso não é novidade. Se compararmos com a
cultura europeia, por exemplo, que tem milênios de existência, a cultura
brasileira é pobre e seu povo não se esforça para protegê-la. Peguemos a
Itália, por exemplo: essa nação é tida como um grande museu a céu aberto. Lá
podemos encontrar desde as ruínas da Antiguidade, de séculos antes de Cristo,
passando pelo patrimônio medieval, renascentista e barroco. E no Brasil, o que
preservamos? Salvo algumas construções barrocas encontradas principalmente em
Minas Gerais e algumas ruínas coloniais, como nas Missões no Rio Grande do Sul, não
temos preservado muito a nossa cultura.
Agora, se Zeca Camargo
e Mônica Iozzi citam o termo “Cultura” para se referirem a gosto pessoal, aí é
um outro assunto.
“Genericamente a
cultura é todo aquele complexo que inclui o conhecimento, a arte, as crenças, a
lei, a moral, os costumes e todos os hábitos e aptidões adquiridos pelo homem não
somente em família, como também por fazer parte de uma sociedade como membro
dela que é. (...) Cada país tem sua própria cultura, que é influenciada por vários
fatores.”
Portanto, queridos
jornalistas, música sertaneja é cultura sim! Faz parte do conjunto de interações
realizadas pelo provo brasileiro. Da mesma forma que telenovela também é
cultura, forró é cultura, carnaval é cultura, São João é cultura. Não confundam,
por favor, cultura com intelectualidade, que deve ser o termo ao qual vocês se
referem nas suas colocações. Cultura não é só aquilo de que vocês gostam.
Resumidamente, cultura é o conjunto de expressões de um povo.
Se para Zeca, Michael
Jackson e a princesa Diana são ídolos de verdade, para mim eles não são. Se
para a Mônica, Cazuza é um ídolo de verdade, para mim ele não é. E aí? Vão
querer agora selecionar meus ídolos? E quem tem o direito de selecionar os
ídolos de uma cultura? Eles dois?
“Vamos ouvir um
pouquinho mais de Cazuza para a gente ter um mundo melhor.” Sério, Sra. Mônica Iozzi? De verdade? Que tipo de
mundo melhor o Cazuza deixou? Que transformações sociais ele operou? Que tipo
de pessoa era o Cazuza para eu ter como referência para um mundo melhor? Quem é
você, para sugerir que o povo brasileiro deixe o sertanejo universitário de
lado? Não, eu não sou fã de sertanejo universitário, mas isso não me dá o
direito de classificá-lo como melhor ou pior do que qualquer outro gênero musical.
Aqui cabe um dos provérbios
mais inteligentes do mundo: “Cada um sabe de si.” Vamos deixar de nos
incomodar com o gosto musical do vizinho, com os ídolos pelos quais ele
chora, com a comoção nacional. Não curtia? Fica na sua! Respeita quem curte,
respeita a família do rapaz que sofre por tal perda, respeita o direito de cada
um curtir o que bem quiser e bem entender. Tem o direito de falar o que pensa?
OK! Mas esse direito não inclui o de ofender o próximo.
Muitas pessoas
defenderam o que o Zeca Camargo falou, dizendo que ele apenas disse o que muita
gente pensava e não teve coragem. Mas eu pergunto: para que dizer? Está
incomodado com a comoção e a promoção exagerada da mídia? É como eu sempre
digo: desliga a TV e vá ler um livro. Você lucra muito mais.
(Postagem escrita ao
som de Dead Can Dance porque é do que eu
gosto e tem que ser considerado como Cultura!)
Dead Can Dance (que fofos!)
Vamos aprender a gostar deles porque é Cultura.
Einstürzende Neubauten
(Vamos curtir, hein!)
Modinhas.
E qual o problema?
Romero Britto
Para a elaboração dessa postagem, foram consultadas as seguintes páginas:
Publicado em
29/06/2015.
Publicado em
07/08/2015.









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