sexta-feira, 20 de maio de 2011

O Corpo e a Nudez

O post em questão é, antes de tudo, uma autodefesa. Depois de muito ser taxado de pornógrafo, tarado e similares, resolvi falar sobre a fascinação que o corpo humano exerce sobre mim. Todos esses termos de que me acusam são errados, até mesmo no aspecto etimológico.



Lembro que, desde criança, eu já achava interessante o corpo humano, tanto que, por volta dos 6-7 anos, folheando um catálogo de vendas de livros pelos correios (naquela época não havia compras pela internet, nem internet havia), fiquei interessado num livro que ensinava a desenhar nus artísticos (sempre gostei de desenhar, desde a mais tenra idade), e fiquei eufórico em poder aprender a desenhar o corpo humano com suas curvas e texturas. Bom, não precisa falar que não me compraram o livro. O que não me fez perder a admiração pelo corpo humano.



Hoje, quando, na verdade, me taxam de pornógrafo, é porque consigo ver a beleza impressa no corpo humano. E quando falo em corpo humano, falo HUMANO mesmo, não aquelas bonecas industrializadas em que as pessoas têm se transformado: medidas perfeitas, milimetricamente obtidas nas mesas de cirurgia; aquela coisa quase mórbida dos ossos apontado sob a pele. Magros, gordos, altos, baixos, negros, brancos, índios, sem distinção, o corpo humano possui matizes cromáticas, variações de texturas, de perfumes (frescor, suor...), de temperaturas, de timbres de vozes, de dentes, de expressões, de gestos triviais, como a maneira de piscar os olhos ou erguer as sobrancelhas, de sorrir, de respirar.



O fato de filmes pornográficos me interessarem não é só pela situação sexual. É também pela admiração pelo corpo humano, formas, cores, as infinitas maneiras da utilização do corpo. Eu não curto filmes pornôs de forma generalizada. Eu me interesso pelos atuadores, pela situação encenada, me interesso por estilos de filmes, cada diretor, cada produtora tem suas características específicas, e só quem nunca parou para prestar atenção é que abre a boca para dizer: “Filme pornô é tudo igual.” Não é! Só diz isso quem nunca viu um filme realizado com uma boa produção.



Um das maiores personalidades do teatro brasileiro, Zé Celso Martinez Correa, fundador do Teatro Oficina, com o qual tive a imensa honra de trabalhar, no programa do espetáculo “Os Sertões - Homem II”, depõe: “Há 47 anos de profissão dou entrevista sobre porque eu “exploro” o nudismo. Tenho que explicar o mar. É o figurino mais belo do Teatro, (...), a inocência dos índios brasileiros já sabia disso.”




"As Bacantes" : montagem que se tornou marco do teatro brasileiro contemporâneo, realizada pelo Teatro Oficina nos anos 90.





Os pintores que fugiram do Academicismo/ Classicismo não só celebram o corpo humano em sua naturalidade, destituído da aura de divindade esculpida, como propuseram reestruturações que, para os mais despreparados, podem parecer bizarras, absurdas, mas que é igualmente fascinante: Pablo Picasso o geometrizou no Cubismo; Francis Bacon o desconstrói e o vira do avesso; Lucien Freud o mostra numa naturalidade quase animalesca; Fernando Botero faz sua crítica social utilizando-se de personagens rotundos. Todas essas são visões tão fascinantes quanto as cheinhas de Peter Paul Rubens e as divindades humanas de Adolphe William Bouguereau.


O corpo humano endeusado de A.W. Bouguereau.



As cheinhas de P.P.Rubens, padrão de beleza do século XVII.





O corpo cubista, por Pablo Picasso.








Francis Bacon e a desestruturação do corpo.















Francis bacon




Lucien Freud e a naturalidade do corpo.















"O Casal Arnolfini", Jan van Eyck, século XV.


Versão de Fernando Botero para "O Casal Arnolfini."




Versão de Fernando Botero para a Mona Lisa.




"As Três Idades da Vida", de Gustav Klimt.

A consciência da perda do viço.




Egon Schiele e a distorção anatômica.



Egon Schiele.






"A Origem do Mundo", de Gustave Courbet.

Tela que chocou a burguesia no século XIX.






A concepção artística do século XX nos trouxe contestadores como Robert Mapplethorpe, cujo trabalho, extremamente fascinante, e que foi inúmeras vezes alvo de incompreensão, critica a hipocrisia da sociedade frente ao corpo despido. Como já citou Joãozinho Trinta num de seus carnavais na Beija-flor: “Todo mundo nasceu nu.” E o corpo nu deve ser tratado com tanta naturalidade quanto o corpo vestido. Claro, que não é por causa disso que iremos sair por aí como se vivêssemos numa colônia de naturismo, sou complemante a favor do bom senso, cada coisa em seu lugar. Refiro-me àquele tipo de pessoa que não pode ver um peitinho de fora na TV que vai logo condenando a espécie humana à eternidade no fogo do inferno. Também devemos saber separar espontaneidade de putaria. Uma coisa são visões com as de Mapplethorpe, de Egon Schiele, de Gustav Klimt. Outra coisa é a depravação moral que prega certos produtos sociais (“Abre as pernas, mete a língua/ Já viu como é que faz /Tira a camisa, bota-tira, entra e sai”), como letras de funk, e a utilização do corpo como produto de consumo, vide as mulheres frutas (tem até um desafio agora para ver quem consegue retirar o celular do meio das nádegas de uma dessas frutas do momento).
Isso vai de encontro a tudo que escrevi até agora. É a visão totalmente oposta da naturalização da nudez, isso é depravação moral. A humanidade foi construída por mentes e idéias e não por amontoados de carne pendurados em ganchos de açougue.



Fotografia de Robert Mapplethorpe.






Auto-retrato de Mapplethorpe.

Amo essa foto! Ela é contundente, mas, ao memso tempo natural.

O artista se tranforma em algo que lembra um animal, um sátiro.




Fisting, fotografia de Mapplethorpe.




Cor e textura, Mapplethorpe.





O mesmo Mapplethorpe taxado de obsceno

é capaz de sutilezas como essa foto.




Ou essa.




Ou ainda essa. Uma das fotos mais expressivas

do século XX.






terça-feira, 17 de maio de 2011

Gaga Gagá







A sensação dos blogs de atualidades semana passada foi o novo clip da Lady Gaga, que vazou na rede (vazou, sei!, ela não tem assessoria de marketing por acaso): o tal de “Judas”. No vídeo, a performer (me recuso a chamá-la de cantora) faz coraçãozinho com as mãos (trash!), sensualiza com motocilclistas (motoqueiro é quem conserta motos), numa metáfora pós-contemporânea, segunda ela, dos cafajestes que traem as mulheres (daí a comparação com Judas) e elas continuam amando-o (como podemos ver, a metáfora pára por aí). Ela encarna uma Maria Madalena dona da situação, e novamente, segundo a própria, para mostrar o poder da mulher frente à sociedade e, óbvio, ao homem.






Bom, não precisa falar que causou escândalo na mídia. Mas claro que era a intenção. Porque quem não tem talento, tem que chamar atenção de alguma maneira, para que alguém se interesse em ouvir aquilo que ela chama de música. Sim, porque aquilo é péssimo. Voz ela não tem, senão não precisaria de tantos programas para distorcê-la; letra, menos ainda; e a melodia é sempre um poperô barato que gruda na cabeça da gente feito chiclete ploc na calçada sob o sol. Não me atrevo a chamá-la de cantora. Ela é uma performer, que faz aparições grotescas, que encarna personagens bizarros que nada condizem com o que ela profere em suas letras absurdas (gente o que é aquele “ale, ale, ale/ ale, alejandro!”?). Vestido de carne, cara de alienígena, apresentações em que ela finge automutilação e se esvai em sangue são atuações mais próximas de um estilo Marilyn Manson ( o antigo, porque o recente também se rendeu ao poperô à la Fábio Júnior e agora canta uma coisa cujo refrão diz: “Don't break, don't break my heart/ And I won’t break your heart-shapped glasses.” Duh!) Sem falar, que a jovem é um mosaico de tudo o que já foi feito no pop das últimas décadas, principalmente de Madonna, a quem ela copia abertamente e ainda tem a audácia de dizer que Madonna não é referência para seu trabalho (“Aham, senta lá Cláudia!”).





Resumindo, não vale a pena nem perder muito tempo com ela, por isso o post foi bem curto. Só resolvi escrever porque essa comoção pública em relação ao “Judas” me incomodou. Numa época em que o que se vê em galerias de artes são telas ovais com flores de pano de prato pintadas, ou podres imitações toscas das idéias de Jackson Pollock (ou seja, tinta acrílica jogada a esmo, sem um mínimo de conceito), Lady Gaga só comove mesmo a massa superficial sem referência alguma sobre música, arte ou contestação.







P.S. Para quem quer saber mesmo o que é crítica social/religiosa, sugiro conhecer a obra de cineastas como Pier Paolo Pasolini e Luís Buñuel.


















O único registro interessante que já surgiu dela


(visualmente falando, porque musicalmente ela ainda não fez.)