
Ontem fui ver “A Single Man”, filme de estréia do ex-estilista e agora diretor, Tom Ford, que, graças à imensa criatividade dos tradutores brasileiros, aqui passou s se chamar “Direito de Amar”, e não tem nada a ver com a novela de Walter Negrão , exibida pela Rede Globo nos anos 80 (Saudosa, por sinal. Antigamente se escreviam novelas interessantes.)
Fazia tempo que um filme não me fascinava tanto. Como Cinema, com C maiúsculo, a Arte.
Cada seqüência, cada diálogo, cada close, tudo é deslumbrante. E para quem conhece o trabalho do “texanô” no mundo da moda, vai reconhecê-lo no filme. Na elegância das tomadas, nas câmeras lentas que acompanham gestos banais do cotidiano, no close do olho do interlocutor, na fotografia que se transmuta em sépia, em tons azulados, ora mais saturada, ora menos contrastante, variando de acordo com a emoção sentida pelo protagonista.
O filme se passa na década de 60 e os figurinos de Arianne Phillips, mais conhecida como a figurinista das turnês mais recentes de Madonna, faz com que nos sintamos dentro da época, ajudado pela direção de arte.
A trilha sonora é um caso à parte, de tão linda. Já na abertura, a música nos prepara para a carga emocional do filme. É algo que lembra o John Barry de “Entre Dois Amores” (nos arranjos das cordas), Michael Nyman de “O Piano” (nas notas delicadas e repetitivas do piano e da harpa), com a carga dramática e as modulações que chegam a lembrar os lieder de Mahler. Assim que cheguei em casa, fui procurar a trilha sonora na internet, composta pelo polonês Abel Korzeniowski, que até agora não tem nenhum destaque na área cinematográfica, mas que tem uma pegada meio Wojciech Killar, um estilo contundente, mas delicado ao mesmo tempo. A trilha conta também com algumas canções, como "Stormy Weather" de Etta James, uma ária da ópera La Wally, de Catalani, e uma versão de Blue Moon, na voz de Jo Stafford.
Se esteticamente o filme é fascinante, seu conteúdo não fica por menos. O roteiro acompanha um dia na vida do professor universitário George Falconer, tentando recontruir sua vida, através de fragmentos de suas memórias, após a perda de seu namorado de 16 anos de relacionamento, num acidente de carro. Esse Ulisses joyciano, oprimido pela sociedade preconceituosa norte-americana dos anos 60, carrega o peso da dor da perda, ao mesmo tempo que precisa se envolver numa capa de falsas aparências para esconder sua ferida emocional.
O elenco é excelente. De Colin Firth e Julianne Moore não poderíamos esperar atuações menos que excepcionais. A narrativa é lenta, lembra muito “As Horas”, de Stephen Daldry, também com Julianne, o clima é sempre melancólico, contemplativo. Mas é um filme obrigatório para quem aprecia Cinema, (repito Cinema - a Arte). Não é um filme para os que curtem “Stalonne Cobra” ou “Marley e Eu”, por exemplo.
Está passando no Midway, numa sessão batizada de Cine Cult, as 14:00 h ( não poderíamos esperar que ele entrasse em circuito, né?) Mas dizem que já pode ser encontrado em DVD por aí.

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